Seguem alguns pontos levantados no encontro mais recente do projeto de pesquisa, a partir da leitura do livro Virtually You, de Elias Aboujaoude.
Ilusões de grandiosidade (capítulo 2):
O sentimento de grandiosidade (crença exagerada na importância e talentos próprios da pessoa) parecer ser o DNA da internet. A ilusão de estar em um território sem regras consagradas (a rede virtual), em um vácuo ético e legal, e a oportunidade "de ouro" de explorar tal território, encorajam o sonho de grandeza em larga escala, que define muitas vidas online. A ideia errada de que somente coisas boas acontecem online, e de que danos apenas pequenos e não graves podem resultar da vida online na vida offline, estão por trás de muitas iniciativas e atitudes exageradas no ciberespaço. Na verdade, o que ocorre é o efeito contrário: nossa e-personalidade sonha grande, de modo irreal, e exatamente por isso arrisca-se a decepções e quedas maiores. E certamente há danos sérios na vida offline (como veremos em mais detalhes em uma próxima leitura do projeto).
Narcisismo (capítulo 3):
Os narcisistas são auto-adoradores que querem que você os adore também. Concebem a si mesmos como em um pedestal, e concebem a você como um membro de sua audiência. Segundo o autor, a internet está mais i-centrada do que nunca sobre cada um de nós (sendo i = eu): podemos não somente escolher quais portais de notícia acessar, mas também customizar as páginas para definir quais notícias serão destaque - sem falar nos anúncios que recebemos como de nosso interesse, resultado de nossa navegação.
Como gradativamente escolhemos nos expor somente a ideias, entretenimento e mesmo pessoas que nos agradem, estamos minando experiências essenciais ao sentimento de comunidade, e acabamos nos fragmentando em linhas estreitas de interesse (por exemplo, normalmente visitamos o perfil das mesmas pessoas nas páginas de relacionamento, e temos um roteiro pré-organizado mentalmente de como será nossa navegação). Isso seria i-Solation, algo paradoxal, para Aboujaoude, pois a internet supostamente ampliaria nossos horizontes, diversificando nossos interesses e nos ajudando a nos comunicarmos com o mundo.
Também acabamos ficando ainda mais narcisistas, mais cheios de nós mesmos, ao termos as mínimas necessidades customizadas à nossa maneira. Além disso, há dificuldade em resistir à ideia de uma reinvenção pessoal online, processo no qual "editamos" nossa biografia e melhores fotos para, objetificando-nos, vendermos a imagem de como gostaríamos de ser - e não de como realmente somos. Esse processo é extremamente problemático especialmente quando as pessoas começam a preferir sua versão online, e sentem-se frustradas fora da internet, ao não conseguirem levar para a vida real a persona criada online. E é aí que muitos acabam caindo no vício de uma second self, que acarreta sérios prejuízos para a vida offline do indivíduo. Mais sobre o vício será discutido em outro capítulo.
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Em breve exporemos o resumo da discussão sobre imoralidade e maldade online, e sobre regressão infantil na rede virtual. Aguardem.